29 de Março de 2017,

Opinião

A | A

Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 08h:00 | Atualizado:

Paulo Lemos

Um preso chamado Jesus

paulolemos.jpg

 

Jesus, para os judeus da sua época, principalmente à seita que detinha maioria no Sinédrio, os fariseus, fervorosos religiosos e homens zelosos da Torá, foi considerado um herege e até apóstata, alguém que cometeu o mais abominável pecado possível, a blasfêmia contra o Espírito de Deus, por dizer que era o messias, o filho primogênito do Pai celestial, afastando-se, assim, da sua religião originária, o judaísmo. 

É como se Jesus tivesse cometido um crime hediondo, inafiançável, o mais grave de todos, mais até do que roubar ou matar, aos olhos da comunidade judaica. Portanto, não cabia qualquer clemência ou indulto a ele, apenas a morte vexatória e degradante mediante crucificação pública, escárnio a olhos nus e martírio em carne viva.

Então, ele foi preso, acusado, processado, condenado, torturado, morto e enterrado. Cristo foi levado até à cruz pelos "homens de bem" da sua época, como sendo um ser desprezível e pernicioso para a sociedade de então. 

Mesmo assim ele perdoou a todos e não desejou a morte e o sofrimento de nenhum deles. Ao invés de defender que bandido bom fosse bandido morto, levou o ladrão que foi crucificado ao seu lado para casa, para estar ao lado do trono de Deus, como ele vaticinou momentos antes de expiar.

Com relação aos presos, em Mateus capítulo 25, em vez de fazer apologia à tortura ou à carnificina deles, Jesus nos exortou a visitar eles. Ensinou o amor e o perdão, ao revés de o ódio e a vingança. 

Todavia, muitos cristãos de hoje em dia defendem a prisão perpétua e a pena de morte, não demonstram qualquer discordância com a tortura nas celas e justificam o genocídio de presos como sendo a colheita natural dos frutos das sementes que plantaram. Alguns até aparentam querer que isso ocorra com mais frequência, como defendeu o secretário nacional de juventude do governo Temer, exonerado a pedido.

Esquecem-se que Jesus foi um preso da sua época, condenado por aqueles que seriam os mais santos dos santos, os membros do Sinédrio, que consideraram-no um sujeito repugnante e corrompido pela ganância e pela vaidade, senão acometido por uma psicose, sentimento de grandeza, euforia e delírios, como alguém com esquizofrenia ou bipolaridade. 

Trataram-no como sendo um ser desprezível, indigno de qualquer consideração. Um alvo que precisava ser eliminado, a bem dos bons costumes e da tradição religiosa, ante a raiva, o ódio e os preconceitos mais rudimentares que ele despertou em seus julgadores, tanto entre os religiosos, quanto entre o povo que o mandou para o abatedouro.

Hoje sabemos que estavam todos errados. 

Falando em erros, embora o Judiciário não costume reconhecer que erra, logicamente que ele não está livre de falhar, por uma série de fatores, ora e outra condenando pessoas sem culpa, sendo que, em países onde vigora a pena de morte, muitos foram reconhecidos inocentes já depois de enterrados.

Sobre isso, o notável jurista Pietro Verri (1728-1797) advertiu que "mais valeria poupar vinte culpados do que sacrificar um inocente".

E como os mais ricos mormente teriam, como de fato têm, condições de contratar os melhores advogados, as melhores bancas jurídicas, além do caráter plutocrático e oligárquico do nosso Sistema de Justiça, fatalmente tais falhas ocorreriam com maior incidência contra os mais pobres, como já ocorre hoje. Ora, quem congestiona o cárcere brasileiro, os ricos ou os pobres? 

Tal política criminal não mais serviria apenas como instrumento de controle das classes despossuidas, como assumiria a feição oficial de máquina mortífera de eliminação daqueles que pouco ou nada podem dar para o andar de cima.

Em alguns países, para se ter uma ideia, o extermínio em massa dos condenados à pena de morte, quase sempre pessoas pobres, quando não miseráveis, serve para patrocinar um lucrativo mercado de compra e venda de órgãos (coração, pulmão, rim etc...), obviamente que pago por quem tem muito dinheiro, os mais ricos.

Cesare Beccaria (1738-1794), em sua célebre obra, Dos Delitos e das Penas, depois de ensinar que mais importante do que o peso da pena é sua efetiva aplicação e solução humanitária do problema, indaga em palavras que se aproximam destas: "- Do que adianta o suplício capital do preso?" 

Alhures, no mesmo trabalho, ele gravou como idiossincrática que "as leis, que são a expressão da vontade pública, que abominam e punem o homicídio, o cometam elas mesmas é que, para dissuadir o cidadão do assassínio, ordenem o assassínio público".

Retornando a história do cristianismo, logo que ele alcançou maior e mais relevante standard social e político, além de obviamente religioso, já não sendo mais tratado como uma seita judaica radical, e, sim, como uma novel religião, parte dos seus líderes atribuíram aos judeus a responsabilidade pelo crime capital do assassinato do "filho de Deus". De perseguidos tornaram-se perseguidores.

A partir disso, perseguições, flagelos e execuções de judeus foram justificados ante um suposto senso de "justiça divina", quando a história revelou que não passou de fanatismo, revanchismo, vingança e disputa de poder.

Afinal, a perseguição e carnificina promovida em face dos judeus, em séculos ulteriores, a pretexto de fazer justiça ao sangue derramado de Jesus, serviu para quê? 

Serviu apenas para abalar a imagem do cristianismo e revelar seu lado obscuro durante parte considerável da sua história. 

Entendeu o porquê de o justiçamento com as próprias mãos e penas cruéis, como a pena de morte, não serem capazes de resolverem nada, somente de escancarar nosso nível de involução cultural e civilizatória, incitando a cultura da violência e o estado de guerra de todos contra todos, como professava crer Hobbies estar o homem em estado de natureza?

Em verdade, caso fôssemos sinceros conosco e com os demais, iríamos assumir que já fomos e somos contraventores e pecadores, nalguma medida. Isso significa que todos temos de morrer e ir para o inferno? Óbvio que não! 

Por isso Jesus disse aos apóstolos que intercedeu por eles quando a figura mítica de Satanás desafiou que fossem todos passados na peneira. Intercedeu a fim de preservá-los do teste. Cristo sabia que não sobraria nenhum prá contar história. 

É impressionante como se passaram mais de dois mil anos e muita gente, cristãos inclusive, não entenderam isso, e preferem continuar comportando-se como o fariseu que julgou o publicano dentro do Templo.

Paulo Lemos é advogado em Mato Grosso.

(paulolemosadvocacia@gmail.com)

 

Postar um novo comentário

Comentários (9)

  • Carlos | Sexta-Feira, 13 de Janeiro de 2017, 18h04
    1
    1

    O discurso dos Esquerdopatas (que confundem marxismo com progressismo) não é emancipatório, sempre tratam o ser humano por coitadinho, não enxergam as nuances de cada individuo, de cada perspectiva. Eles preferem manter cativos seus adoradores. Vejam o MST e os Sindicatos vermelhos. Como pode terem ficado mais de 13 anos no poder e ainda existir MST e supostas lutas dos trabalhadores "oprimidos". Criaram um viés de caos e de ódio ao capitalismo, enquanto a cúpula do partidão roubava junto com as velhas raposas da política, inclusive os coronéis que matam de fome os pobres do nordeste vendendo o sonho de água na caatinga a conta-gotas... Juntou marximso cultural com a malandragem macunaímica do Luladrão e outros debochados (é só ver o linguajar do dito cujo em inúmeros videos no youtube, sempre falando para uma platéia adestrada e num tom de vitimização ou de deboche). É triste falar sobre esquerdopatia. Eu não queria. Mas é preciso criticar para ao menos perceberem os excesso do esquerdismo vermelho.

  • Carlos | Sexta-Feira, 13 de Janeiro de 2017, 17h19
    2
    1

    Manipular palavras para comparar o julgamento de Jesus com o aprisionamento de presos comuns é de uma infelicidade e ignorância que demonstra como a mente poluida de um esquerdopata trabalha. Sempre tentem a tratar o ser humano como coitadinho, ignorando o livre arbitrio. O marxismo cultural destruiu o Brasil na mesma proporção do jeitinho, da corrrupção e dos demais crimes cometidos por nossos governantes nos últimos 500 anos. O esquerdopata sempre se faz de vítima. Com pode o PT alegar que diminuiu a pobreza e que essa era a maior razão da criminalidade; estavam errados por que são marxistas. A pobreza diminuiu nos últimos 13 anos, mas a violência aumentou e muito fruto da impunidade e do coitadismo que impera nas mentes dos políticos, educadores, filosofos, cientistas, pois todos ainda que não saibam forma contaminados pelo marxismo cultural do nefasto Gramsci...

  • carlos | Sexta-Feira, 13 de Janeiro de 2017, 17h12
    2
    1

    Sempre tem um esquerdopata defendendo Barrabas, ou insuflando o povo para defendê-lo. Comparar Jesus Cristo com criminosos comuns é no mínimo uma leviandade, mas sabemos que trata-se de um marxista cultural, ainda que ele não saiba que o é. Esquerdopatas são aqueles que confundem progressismo com marximo, sem considerar o iluminismo, o ideais cristãos, kant, a antiguidade clássica. Tratam o ser humano como um coitadinho que ou era vítima do Estado ou dependia dele para viver, sem considerar o livre arbítrio e a índole/natureza individual de cada um. Para o esquerdopata a razão humana nasceu com Marx e com os comunistas. O marxismo serve apenas como um crítica aos excessos do capitalismo, nada mais.

  • Antônio Wgner Oliveira | Sexta-Feira, 13 de Janeiro de 2017, 12h19
    1
    2

    o que o colega "deplorável" e só pelo nome escolhido e ficar escondido nas sombras da internet já demonstra que é de fato, deplorável sua postura, ainda não entendeu é exatamente o contrário do que escreveu. À época o que Jesus fez era considerado Crime, e por pessoas que se assemelham a esses falsos cristãos de hoje, foi julgado e condenado, num justiçamento em praça pública que muitos hoje defendem com seu senso comum e ódio. NINGUÉM está comparando preso com JESUS, mas apenas as circunstâncias que levam a esse pensamento criminoso de fazer justiça com as próprias mãos ou defender pena de morte em um país desigual como o nosso, onde quem tem dinheiro não fica preso e o pobre coitado vai para a cadeia pois não pode pagar um bom Advogado. Dizer que é baboseira um texto bem escrito e fundamentado, mostra o nível de intolerância e falta de conhecimento para um debate mais lógico, educado e embasado. Jesus pregou perdão e amor, e não se perdoa quando matamos, não se ama ao próximo quando o julgamos sem conhecer sequer sua estória. Ninguém deve ser morto, se não pela ordem natural da vida, ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém, apenas Deus.

  • NEEMIAS | Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 23h18
    1
    2

    CONCORDO QUE JESUS NÃO PODE SER COMPARADO COM OS PRESOS DE HOJE, PORÉM SEUS JULGADORES E ACUSADORES SÃO SEMELHANTES AOS QUE VEJO HOJE NAS MIDIAS SOCIAIS E NA IMPRENSA CONDENANDO AS PESSOAS SEM CONHECER E SÓ POR OUVIR DIZER.

  • Roselucia Rodrigues | Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 15h38
    2
    3

    A reflexão é pertinente, tratando se do justiçamento que estamos experimentando, a situação daqueles que exigiram a libertação de Barrabás e a crucificação de Cristo é a mesma dos julgadores atuais que posicionam e matam sim, matam, quantos já não foram mortos, será que estes diferem daqueles que julgaram?

  • Carlina Santos | Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 15h35
    3
    2

    Quanta infelicidade, comparar JESUS CRISTO à um criminoso dos dias atuais. Entretanto, concordo com o Wanderson, no ponto de que não temos o direito de "matar aqueles que cometeram crimes". Mas o "Deplorável" foi muito feliz em suas colocações, curto e objetivo!

  • Wanderson A. S. Duarte | Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 13h04
    2
    3

    Esses "cristãos" de hoje em dia não sabem de que espírito eles são... Só porque a pessoa cometeu um crime, não significa que temos o direito de matar ela. Não é isso o que o evangelho ensina. Mas esses bolsonazis não tem sua base na rocha! Apenas isso.

  • Deplorável | Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 08h46
    6
    7

    Quanta baboseira, nem de longe o MESTRE JESUS se compara com qualquer um dos presos dos dias atuais e de qualquer dos tempos. JESUS FOI PERSEGUIDO E CRUCIFICADO POR PREGAR A LIBERTAÇÃO E A PALAVRA QUE SOMENTE O VERDADEIRO DEUS SALVA! Jamais ele praticou crime algum. Artigo deplorável!

INFORMES PUBLICITÁRIOS

MAIS VÍDEOS