19 de Setembro de 2017,

Polícia

A | A

Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2017, 13h:15 | Atualizado:

Parentes de presos temem rebeliões e mortes em MT


A Gazeta

 

Familiares de presos estão apreensivos com medo de que se repitam em Cuiabá massacres similares aos de Manaus (AM), em que morreram 56 presos, e Boa Vista (RR), 31, no início deste ano.

"Não durmo direito, não como direito, trabalho em dois serviços e não sei como estou aguentando", comenta a técnica em radiologia I.P.B., de 38 anos.

O marido dela foi preso há apenas um mês por tráfico de drogas, justamente o crime que movimenta a guerra das principais facções criminosas que dominam os presídios no país: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Na manhã desta quarta-feira (11), ela não conseguiu visitar o marido na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, a maior unidade prisional do Estado, onde ficam os chamados reeducandos de alta periculosidade. "Trabalhei a noite toda e quando cheguei aqui não tinha mais senha", lamenta.

Diante dos noticiários, alega que o filho de 11 anos, que "é esperto e sabe muito bem o que está acontecendo", entrou em depressão. "Não consigo marcar uma visita social para ele ver o pai e ele fica preocupado e eu também".

Dona de lanchonete I.R.A., de 40 anos, há 5 anos, é esposa de um presidiário, condenado também por tráfico de drogas. Ela chegou bem cedo à PCE nesta quarta, antes das 6 horas, e pegou senha. Grávida de 3 meses, fumando, também mostra-se preocupada com a situação no sistema prisional. "Com risco de rebelião já estou até acostumada, só não acostumo é com humilhação", reclama ela, se referindo ao tratamento dado aos visitantes. "Somos tratadas que nem lixo, humilhadas", reclama, no gênero feminino, uma vez que, visivelmente, na fila de visitantes, mais de 90% dos presentes são mães e esposas, além das crianças - os filhos de detentos.

"Outro dia me levaram para a UPA, eu e mais 20 mulheres, para fazer raio x, falaram que eu estava levando celular na b...Falaram mesmo assim: vamos tirar o celular da sua b...Eu estava quieta, pensando em nada, só esperando a vez, no banco da entrada e me puxaram na maior brutalidade, como se eu também fosse presidiária, não temos culpa pelo crime de nossos parentes".

Para I.R.A., o único motivo de passar por tudo isso é o amor.

"Amo meu marido e muito se não não aguentava tanta humilhação mais não", desabafa.

Quando o marido da manicure J.M., 26, "caiu" há 1 ano e 4 meses por tráfico de drogas, ela conta que sofreu muito. "Chorei demais, tive que mudar para perto aqui da PCE para facilitar as visitas, eu e minha filha de 6 anos. Mas a gente tem que continuar, trabalhar, viver. Ando Cuiabá inteira fazendo unha e levo minha filhacomigo por onde vou. Agora, aqui no presídio, não trago ela sempre não, ela é muito sabida".

Nos dias de visita, às quartas-feiras e aos domingos, J.M. leva para o marido comida caseira e 4 litros água mineral. "A comida daqui é horrível e água do bebedouro deles ninguém bebe, é puro lodo".

Outra manicure, A.C., 23, acha que as humilhações e as condições na PCE é que podem motivar uma rebelião.

"Pelo que a gente sabe, só tem uma facção aí dentro, o Comando Vermelho. Do PCC, são só 13, se for, e maioria deles já foram transferidos, muitos deles ", especula.

Ela também acha que na PCE se acontecer rebelião não será por rixa entre facções mas pelas condições de sobrevivência.

A.C sente saudades do marido, de namorar. Ela faz visitas a ele uma semana sim e outra não, porque o raio está lotado e, com as visitas, lota ainda mais.

Mostrando que entende da dinâmica de presídio, afirma que, dentro da PCE, nenhum outro homem ergue a cabeça quando as esposas e namoradas entram.

"Somos respeitadas, ninguém nem sonha em mexer com a gente", assegura.

A preocupação da M.C.S., 49 anos, é dupla. Ela tem dois filhos de 23 anos, gêmeos, presos na PCE. Ambos acusados de homicídio. Segundo ela, um matou durante transtorno bipolar. O outro por ciúmes.

"Para todo mundo a vida de um preso pode não fazer nenhuma diferença, mas para um a mãe, para uma esposa, um filho, faz", explica ela.

Muitas horas no dia, ela conta que vem na cabeça dela uma pergunta: "Por que eles cometeram crime, foi por minha culpa? Mas eu entrego na mão de Deus e não falho em uma visita, desde o dia que o primeiro pôs os pés aqui, nunca faltei", orgulha-se.

O filho dela que matou por ciúmes tem temperamento explosivo. A nora, com a filha dele de 8 meses no colo, conta que tinham um bar e a vítima do homicídio todo dia ia lá importuná-la.

"Me falava coisas indecentes e eu aguentava porque era comerciante e ele cliente, mas um dia ele passou dos limites e meu marido viu ele passando a mão em mim e matou o cara com um facão, que a gente usava para quebrar gelo", detalha.

"Ele pode ser explosivo, mas comigo não é, é um bom marido e sempre era trabalhador", afirma. "Tenho muito medo dele morrer no presídio em rebelião".

A vó I.F., 74., era a mais idosa na fila de visita nesta quarta. Ela vai à PCE com a filha, de ônibus, ajudando a carregar comida e água o neto de 23 anos. Afirma que não sabe e não quer saber o crime que ele cometeu. Ajuda a carregar as coisas e volta para casa.

"Eu venho fazer companhia e ajudar minha filha, só, entrar no presídio não entro. Se você me perguntar se eu gosto desta situação, eu digo que gostar não gosto, mas..."

Com o rosto tomado por rugas, chega a fechar os olhos para declinar os vários lugares onde já trabalhou. "Fui empregada doméstica, lavei casa, varanda, loja, hotel, tanto lugar, lavei passei para tanta gente, vendi Avon, vendi roupa uns 10 anos, vendi salgado na bacia, lutei muito para criar meus 9 filhos, sem marido e sem nenhum homem dentro de casa. Não gosto nem de lembrei o que já passei", cita a idosa, ao ser questionada se ela ou alguém da família já se envolveu com criminalidade.

"Não, só esse meu neto e já é muito triste de ter só ele ai dentro", lamenta.

 

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

INFORMES PUBLICITÁRIOS

MAIS VÍDEOS